Quer tomar um chazinho comigo?
Faça seu chazinho e sente-se aqui ao meu lado, caso você queira conhecer um pouco da minha história.
Vai ser um papo profundo, mas ao mesmo tempo superficial, porque a gente mal se conhece; os detalhes mais íntimos ainda guardo para mim.
Vou te contar sobre uma situação de vida que me foi bem desafiadora. Em algum nível ainda é, porém, bem menos.
Nada melhor do que tempo e uma boa terapia para fazermos novas leituras sobre nossa narrativa e transformarmos uma dor antiga em um novo conto.
À medida que vamos nos conhecendo melhor, espero que minha escrita possa fazer companhia em algum desafio que você esteja vivendo por aí, e talvez também na dificuldade em compartilhá-lo com alguém.
Inclusive, saiba que esse nosso chazinho me faz companhia. Por anos, não consegui dividir algo tão importante que eu estava vivendo com praticamente ninguém. Essa intimidade que vamos trocar por aqui é fruto de muitos passos dolorosos, muito trabalho interno de transformação, e a superação do meu silêncio é uma grande vitória pessoal.
Veja se a temperatura do chá está ao seu agrado e brindemos à minha conquista em poder deixar fluir de uma maneira mais organizada, o que um dia foi uma confusão indescritível de um segredo irrevelável.
Saiba também que você tem a minha empatia na dificuldade que você está passando por aí.
Então vamos lá…
Uma qualquer manhã de domingo, eu, com meus 35 anos, casada, 5 filhos, realizada na minha carreira como mãe, feliz com meu caminho profissional, achava que já tinha gabaritado a vida. Aí a veio Vida me falou: “Menina, você gosta de estudar sobre autoconhecimento, então vou te dar uma ajudinha, vou dar uma complicada na sua vida e veja como você sai desse labirinto!” A maneira que a vida encontrou de me mostrar que eu estava apenas começando meu aprendizado começou naquela manhã qualquer.
O pai dos meus filhos teve um grave acidente; seu carro trombou com um rapaz que voltava da balada, capotando na rua de casa.
Não! Ele não morreu, mas foi o começo de vários fins.
A partir desta data, ele começou a ter sintomas neurológicos: um diagnóstico de mal de Parkinson, ativado pelo acidente, tirou nosso chão.
Para quem não sabe, e espero que realmente você não saiba, é uma doença neurológica degenerativa, que não tem cura.
A idade média em que ela se inicia é aos 70 anos, em que os sintomas mais evidentes são tremores, principalmente nas mãos, rigidez no corpo e lentidão na movimentação, em que a paralisação total dos músculos não pode ser evitada, apenas procrastinada por meio de exercícios físicos e dos avanços da medicina. Uma doença sem cura, com perspectiva de apenas agravar os sintomas, trazendo lentamente mais limitações à vida diária, em que o simples olhar, andar, falar vão se tornando um desafio constante.
Não era um diagnóstico letal. Mas sim, um diagnóstico de que a vida a partir daí não seria fácil. Eu já não achava que era, mas eu percebi que “era feliz e não sabia”.
A minha perspectiva sobre a vida mudou, tentando não afundar diante das informações sobre como seria a evolução desse terrível mal.
Na época, 15 anos atrás, era um anúncio de que iríamos viver um filme de terror. Eu precisava estar preparada para uma velhice nos meus anos joviais.
Hoje vejo o que eu temia acontecer: a doença chegou com tudo, mas a vida não se tornou um filme de terror. A minha curadoria qualifica o que nossa família passa; é uma mistura de drama, aventura e, muitas vezes, de tão paradoxal a situação, rimos. Rimos para não chorar.
Enfim, para quem não conhece essa patologia, ou nunca teve um doente grave na família que tivesse que reorganizar todas as relações, o chazinho deve estar desinteressante.
Sigo te contando para onde todo esse processo da doença me levou internamente; assim, possivelmente a troca pode ser um pouco mais dinâmica. Se você já viveu um amor, uma despedida de uma pessoa que foi deixando de ser quem um dia você conheceu, um luto, um divórcio ou está acompanhada de uma pessoa que não te acompanha, talvez você empatize um pouco com esse meu processo: eu vivo tudo isso, junto e misturado. Uma experiência solitária, em que uma pessoa viva deixa de estar presente, quebra seu coração e sua rotina, porque, além de não conseguir se expressar, demanda cuidados absolutos.
A solidão em ter que lidar com toda expectativa não realizada da relação, com a perda de um companheiro, perda do meu lado mulher (em todos os sentidos), perda da função de pai para seus filhos, lidar com 5 faltas em diferentes faixas etárias e diferentes personalidades e ter que assumir um papel de “liderança” da família dentro de uma dinâmica de infância/adolescência foi desafiador.
Sempre que a vida nos apresenta o “ter que“ ser algo contra nossa vontade, fazer as pazes com esse papel torna-se nossa maior missão.
Quando vejo meus filhos hoje, crescidos e tocando suas vidas, consigo relaxar, como se eu tivesse feito uma trilha muito perigosa, e o penhasco já ficou para trás: um percurso bem suado, que fortaleceu a musculatura emocional de todos.
Pense num penhasco da sua vida que você conseguiu ultrapassar; brindemos a isso também!
Agora vamos ao que interessa, afinal, antes de tudo, sou psicóloga, então me sinto em uma responsabilidade duplicada em cuidar bem do meu case.
“Era uma vez… e… viveram felizes para sempre… ” Muitos têm — ou tinham — uma crença infantil de que um relacionamento pode te “completar completamente”, que somos metade de uma laranja e o parceiro correto seria a outra metade, no mesmo ponto de maturidade da fruta. Não preciso dizer que qualquer parceira destrói essa idealização em pouco tempo.
Temos uma tendência natural em projetar no outro algo que esperamos que ele componha em nós a fim de nos sentirmos preenchidos, mas isso é um mecanismo nada saudável de lidarmos com nossas faltas. Porém, também, felizmente, a frustração desta projeção, é o caminho para podermos identificar o que precisamos construir em nós para deixarmos de esperar que algo no outro aplaque tudo aquilo que não somos.
Eu tive que aprender a ser minha própria fonte nutridora para dar conta de assistir o homem que eu amava definhando e criar as crianças nessa situação complexa.
Fiz de mim meu próprio laboratório, testando as várias teorias que eu estudava a fim de incorporá-las.
Espero que você já tenha percebido que ninguém vai poder preencher completamente seus buracos, mas sim, muitos encontros, falas e atitudes nos amparam e acariciam nossa alma.
Fica a dica, não são eles: É em você! Tem a ver com o quanto você deixa penetrar o seu ser e de receber de um encontro aquilo que ele pode te dar — seja um encontro terapêutico, amizade, relacionamento — e te aconselho: nutra-se um pouco de cada um, inclusive dos limites que as relações te causam. Vou explicar melhor: o que as pessoas não podem te dar pode ser o caminho para você encontrar a si mesmo, perceber o que te toca, o que te carece, pode ser um convite para sentir-se vivo dentro da própria pele. Um lugar silencioso que te leva a buscar um encontro com Algo Maior dentro de si e que te transcenda.
Confiar que eu estava sendo conduzida pelo Criador, que criou o universo, seus problemas e soluções, me trazia a força e um acalento no coração. A espiritualidade sempre me fez companhia; a crença de que somos uma alma que vem para esse plano a fim de desenvolver-se sempre me fortaleceu, porém, também precisei de muita ajuda terapêutica para saber como fazer isso da maneira que fosse possível para mim.
As Constelações Familiares, a todo momento, te tiram do lugar de vítima, que apenas nos paralisa. Se somos uma alma em uma missão espiritual, “escolhemos” — a nível de alma, os pais certos e os desafios certos para nós, que vão nos dar as faltas, carências e dores certas , que podem potencializar nosso melhor desenvolvimento. Desfazer-me de expectativas que um dia tive de um casamento que se esfarelou por uma doença foi a maneira que a vida me ensinou a nutrir-me de mim. Talvez esse seja o ponto que nos una. No fundo do fundo, todas as dores podem nos levar ao mesmo lugar, ou você se torna uma vítima de sua própria narrativa.
A missão é chegar à sua essência, alinhar-se com sua alma. Alma não no sentido religioso, e sim, no sentido de que somos uma energia que transcende e dá vida ao corpo, e tudo tem um propósito evolutivo.
O maior desafio é dizer “SIM” a tudo como a vida traz.
Parar de esperar é um lugar tão evoluído dentro de um ser humano, porque se inicia quando deixamos de esperar dos nossos pais tudo que gostaríamos de ter recebido e não veio. Enfim, a cura começa nesse aspecto, mas isso já é abrir demais essa temática.
Essa doença congelou seu livre-arbítrio e seu olhar, e isso era o mais desesperador para mim, porque casais de longa data vão calando suas palavras e comunicando-se dentro do silêncio do olhar de uma maneira muito mais eficaz do que qualquer som.
Fomos perdendo o prazer da presença.
Fui vivendo um casamento solitário.
Uma nomenclatura que muitos cônjuges relatam sentir, e quando isso se torna intenso demais, revelado demais, insuportável demais, o divórcio (no meu caso, o gett*) acaba sendo consequência de uma realidade que, na verdade, já existia no casamento. Um destino do qual fugimos, mas que, quando nos rendemos, se torna verdadeiro e curador.
No meu caso, havia um tempero a mais, eu o amava, ele me amava e ele estava partindo para um lugar sem volta dentro de si. Onde a alma não conseguia se comunicar por meio do corpo.
Por um período, parei de trabalhar porque estava tendo muito trabalho interno lidando com a nova realidade dele ao não conseguir se vestir e ter autonomia. Me custava um grande investimento de energia ter que estar presente, viva e educando crianças/adolescentes que, além de não poderem contar com o pai, como tão precocemente, se tornaram cuidadoras do próprio pai.
Esse processo teve várias nuances e fases; cada um, de acordo com sua idade, vive e viveu isso à sua maneira. Eles me ensinaram muito pela diversidade com que lidavam com aquela situação. E eu aprendi com cada um e vejo neles a beleza e a força de um amor que deixou lindos frutos. Frutos que convivem com o pai, mas não sabem o dinâmico homem que ele um dia foi.
A estrutura emocional que eu precisava ser para poder me tornar o suporte deles, eu fui buscar no meu trabalho com as constelações. Por isso confio tanto que essa abordagem pode nos oferecer muita força, afinal, tive que descobrir uma força que eu nem sabia que tinha.
Trabalhei profundamente a minha impossibilidade de salvá-lo e a impotência de não poder salvar ninguém, nem meus pais, nem meus filhos, nem os pacientes e clientes.
A lição mais dura que aprendi com todo esse processo foi a minha limitação, o quanto sou pequena diante de uma situação que estava dada por si só. Quanto ao processo dele com a sua própria doença, aprendi, na marra, a ter que respeitar a maneira com que cada um lida com seus próprios desafios.
As infinitas vezes que me perguntei: por que eu vivo essa situação na minha vida? Qual meu aprendizado? O que grita mais forte sempre é a humildade que tive que aprender em reconhecer minha impotência diante de todo esse processo. Eu parei minha vida para ficar vivendo a vida dele, organizando sua agenda de terapias, dizendo o que ele deveria ou não comer, fazer e agir. Isso me levou a uma exaustão sem fim — só quem já viveu isso me entende!
Eu precisava salvá-lo para poder voltar a ser uma esposa. Uma simples mulher. E nessa tentativa de salvamento fui perdendo-me de mim mesma e demorei uns bons anos para me reencontrar novamente. As lágrimas do meu travesseiro me faziam companhia todas as noites, e minha terapia me ajudava a ser a melhor mãe que eu conseguia ser.
Durante todo esse processo, que teve várias fases, também enfrentei uma solidão bem complexa. Digo complexa porque eu me isolei ao não conseguir compartilhar o que eu estava vivendo. Quem da minha idade me entenderia? Minhas amigas não sabiam o que me dizer, e nem eu.
Tive uma sensação de viver num limbo social: sentia-me casada, viúva e solteira ao mesmo tempo.
Socialmente, eu também tinha dificuldade de acompanhar qualquer um desses três status, porque a vida de casal já não era possível, mas, naquela época, a liberdade de uma mulher divorciada não condizia comigo e meu coração era de uma viúva.
Eu me sentia uma viúva de marido vivo. Diante desse cenário, novos combinados precisaram ser feitos, afinal, essa é uma doença de velhos e nós éramos jovens. Minha luta foi amadurecer em vez de envelhecer.
Eu me lembro de um abraço que meu pai me deu, depois de eu ter revelado o diagnóstico guardado secretamente. Ele me apertou carinhosamente, bem forte, e disse: “Por que você não me contou antes?” — “Eu não sei”, foi a resposta. “Eu não conseguia falar sobre isso.”
Então, se hoje você não consegue lidar com alguma situação, seja por trauma, vergonha, culpa, saiba que eu te entendo — apesar de muito terapeutizada, eu também não conseguia.
Hoje tenho carinho por aquela “menina” que não conseguia lidar com aquela complexidade, mas, naquela época, eu sabia que precisava negar a qualquer custo a doença: “se ninguém souber, a doença não existe”; era meu pensamento mágico.
Eu estudava psicanálise, discutia casos complexos nos meus grupos de estudo, tinha um grupo de colegas com os quais tínhamos uma linda troca de estudo de casos, e eu não conseguia falar sobre uma dor enorme que eu estava vivendo. Apesar de ter empatia pelo sofrimento humano, eu não conseguia lidar com dados da minha realidade.
Na verdade, eu nunca quis revelar a doença para ninguém; ela se revelou sozinha: os sintomas se intensificaram e a negação não era mais possível. Um mal que foi bom: esconder um elefante embaixo do tapete estava se tornando uma tortura.
Uma nova etapa aconteceu; agora eu poderia ser vista pelo mundo pela verdade interna que eu vivia. Achei que isso seria ruim, mas me enganei.
Você tem medo de que “os outros” saibam o que você sente aí dentro?
Ao longo da minha jornada como psicóloga, quantas e quantas vezes eu ouvi: “Karen, só você sabe sobre meu abuso”, “só para você posso contar sobre meu aborto”, “ninguém mais sabe sobre minha questão com essa compulsão”.
Tenho absoluta clareza de que, muitas vezes, o que imaginamos sobre ‘os outros’ são apenas representações e negações de aspectos nossos. ‘Não conseguir falar sobre esse assunto’ era uma parte minha que temia veementemente as consequências que a progressão daquela doença daria um novo rumo à minha vida.
Por mais abertos e comunicativos que sejamos pelas redes sociais, ainda enfrentamos o maior desafio interpessoal, que é romper com a barreira da imagem que temos de nós mesmos, como queremos transmiti-la, versus o que nós realmente sentimos e o medo de que algo desabe se comunicamos o que pensamos.
Parte do sucesso no meu trabalho emocional foi ter apoio em um trabalho expositivo como o das Constelações. Quando você constela, assiste a si mesmo. Não tem como fugir de uma cena externa do seu mundo interno. Por isso, nos meus grupos tomo o cuidado de que não estejam presentes na constelação pessoas conhecidas entre si que possam trazer uma intimidação para quem está constelando.
Reconheço que meu terapeuta foi imprescindível para eu ter um espaço de segurança, conforto e crescimento. Também na minha vivência pessoal terapêutica, em que vários membros da minha família eram atendidos pelo mesmo profissional, foi de grande aprendizado, cada um poder ser sua verdade, enquanto também poderíamos organizar nossos papéis diante da complexidade individual que cada um apresentava.
Essa experiência pessoal, bem como minhas formações, me dão respaldo para o atendimento que hoje realizo de casais e famílias.
Hoje, escrevendo minha história, quase me parece uma outra Karen. Quem eu era e quem eu me tornei estão tão distantes que só posso dizer que acredito que transformações profundas podem ocorrer de dentro para fora.
Acho que não poderia ter tanta crença no poder das transformações se eu não tivesse mergulhado no meu processo interno.
A humildade de termos que nos reinventar, de pedir ajuda, vem com a difícil arte da aceitação em lidarmos com as situações que a vida nos apresenta.
Espero que seu chá não tenha esfriado enquanto você também me contava sua história da sua dificuldade ou da sua superação.
Todos nós temos nossos desafios, uns maiores e uns menores, mas todos sob medida para nós.
A vida pode se tornar mais fácil quando podemos olhá-los como uma aventura, mas principalmente quando podemos compartilhar essa aventura com alguém que tenha respeito pelos nossos medos e desejos, porque também tem seus medos e desejos.
Beijos e até o próximo chá.
——— Nota de rodapé ———
* Gett – divórcio segundo a lei judaica.
